Queijo do marajó é exclusividade do Brasil, reconhecido no exterior

Queijo do marajó é exclusividade do Brasil, reconhecido no exterior

A iguaria encantou os franceses no Mundial do Queijo de Tours, pela cremosidade e por não se encaixar em nenhuma família de queijos tradicionais no mundo todo.

Esse queijo você não vai encontrar na França. Talvez em nenhum outro lugar do mundo. É o queijo suave, cremoso e consistente da Ilha de Marajó, que foi medalha de prata no concurso do Mundial du Fromage de Tours. “Participar desse evento internacional foi espetacular, nós nunca tínhamos visto tantos queijos diferentes e de sabores incríveis”, diz Cecília Pinheiro, produtora de queijo do município de Salvaterra, na Ilha de Marajó.



Na fazenda São Victor, Cecília e Marcus Pinheiro são a sétima geração na lida com este queijo, fabricado há mais de 200 anos. “Nossa família está aqui desde 1756 e já produzia queijo para consumo nas fazendas”, comenta Marcus. Ele passou 15 anos nos Estados Unidos e, em 2000, decidiu voltar e investir no queijo “mas sem expectativas, pois a legislação nem existia”, completa.

RECEITA DE PAI PRA FILHO

O modo de fazer o queijo do Marajó não se encaixa em nenhuma das famílias tecnológicas de queijo descritas nos livros e conhecidas no mundo inteiro. É um queijo de coagulação láctica, que fermenta por horas, e depois a massa é cozida, algo inédito na Europa.

A recepção do leite cru começa a partir das 8 horas. Imediatamente o creme é retirado do leite com ajuda de uma desnatadeira elétrica. “Não usamos coalho, nem fermentos do comércio, nem fermentos naturais como o pingo. Nosso leite tem tudo que precisa dentro, para o sucesso da nossa receita histórica”, conta Cecília. A fermentação espontânea começa a coagular lentamente o leite.

Algumas horas depois, a coalhada é cortada e fica no soro até o dia seguinte, o que potencializa a fermentação. A dessoragem se dá no dia seguinte de manhãzinha, cerca de 15 horas depois do início da fabricação. Em seguida, a massa é lavada por duas horas com água morna para diminuir a acidez, processo que pode ser feito também com leite desnatado ao invés de água. “Dependendo da época do ano, quando o calor está mais forte e o leite muito ácido, precisamos lavar mais vezes”, explica Cecília.

O queijo é então prensado para, em seguida, ser moído, com a ajuda de uma máquina, e salgado. Para finalizar, a massa vai para o tacho onde ela é “frita” com o creme de leite que foi retirado no início da fabricação. “Aqui a temperatura pode chegar a 90 ºC”, detalha Cecília.

Para fazer um 1 kg de queijo são necessários 7 litros de leite. A produção diária de 70 kg é cortada em barrinhas de 250g ou 500g para começar sua aventura até a casa do consumidor: 8 km no lombo das búfalas até o porto da fazenda e mais 24 horas até a capital.

DO MARAJÓ PARA O MUNDO

“Participar do evento na França nos inspirou e agora queremos fazer uma receita ainda mais cremosa do queijo, seguindo o mesmo processo, porém, vamos adicionar um pouco mais de creme no final”, conta Cecília. “Temos orgulho da Ilha de Marajó, queremos trazer progresso para a nossa região. A nossa vontade é proteger ainda mais o queijo que estava ilhado e agora está ganhando o mundo”, fala ela contente.


IMPOSSÍVEL IMITAR O QUEIJO DO MARAJÓ

Mesmo seguindo a receitinha acima, é impossível fazer o queijo de Marajó fora do seu território. O resultado desse sabor vem da união do clima, das águas, da flora abundante, do pasto rico… É a biodiversidade da ilha que está presente no queijo.

O Brasil não está avançado no reconhecimento das Denominações de Origem Protegida (DOP) como a França (que já tem 45 queijos protegidos). Aqui, em matéria de queijo temos duas Indicações Geográficas em Minas Gerais, os queijos canastra e serro. O coalho do agreste pernambucano fez seu dossiê desde 2010 mas ainda não teve resposta.

“A nossa associação de produtores de leite e queijo deu entrada no processo de reconhecimento da indicação geográfica em dezembro de 2018. Esperamos poder usar o selo de indicação de procedência dentro de dois anos”, explica Cecília.

No Marajó, de acordo com o SEBRAE, 60 queijarias fabricam o mesmo queijo, porém só 11 são certificadas e apenas seis possuem toda a regulamentação em dia.

Texto: Site Estadão

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